SAÚDE SUPLEMENTAR: MODELO EM CRISE

O impacto da incorporação de novas tecnologias no setor saúde e as soluções para a reorganização do sistema suplementar que vive uma crise de financiamento, com repercussões na valorização dos médicos. Essa é a grande discussão que a Amrigs está propondo para identificar os caminhos que levem à viabilização financeira da saúde suplementar no Brasil. Com isto, fica melhor fundamentada a discussão sobre a recuperação das tabelas de honorários profissionais.

Composta por uma rede de três forças econômicas - a indústria, os prestadores e os financiadores- a saúde suplementar não está organizada para ter foco no usuário. “É um sistema paradoxal: cada vez mais caro e pouco eficaz, gerando descontentamento do usuário e dos médicos e demandas judiciais. Além disso, estimula a super-indicação de procedimentos médicos e a incorporação precoce de novas tecnologias. Foi mal construído nas últimas décadas e, a exemplo do modelo norte-americano, está em crise”, define o Dr. Hernani Robin Jr., presidente da Sociedade de Cancerologia
do RS e coordenador do Fórum.

Papel Regulador da Amrigs

O debate começou na Oncologia, especialidade que incorpora muito rapidamente novas tecnologias de alto custo, e precisa ser ampliado para todo o setor saúde. O foco é a saúde suplementar, onde há forte demanda do médico e do usuário para incorporar novas tecnologias. A indústria farmacêutica tenta incorporar o mais rápido possível novas tecnologias na prática médica, que nem sempre são efetivas para o usuário.

Esse é um debate que a Amrigs está trazendo à tona que precisa envolver outras especialidades.”A Amrigs tem o papel de regulador desse mercado por ser uma entidade de caráter científico isenta de conflito de interesses”, observa o Dr. Hernani. Para que haja a regulação deste conflito é importante o aspecto ético, sob a ótica do Conselho Regional de Medicina, e o técnico científico. E aí entra a Amrigs, na medida em que ela emite recomendações de incorporação de novas tecnologias baseadas em análise crítica de evidências publicada.”Faz contraponto com o marketing da indústria farmacêutica que tem assumido cada vez mais o financiamento da educação médica continuada patrocinando eventos e misturando marketing com educação”, define.

Foco na Necessidade do Usuário

O foco do sistema de saúde suplementar deve ser a necessidade do paciente. E para que a rede –indústria, operadora e prestadoras- tenha esse foco ela precisa funcionar como rede, construir um novo modelo onde haja equilíbrio. O Dr. Hernani não tem dúvidas: “isso só será possível com a regulação externa, através da educação médica feita por entidades médicas”. Hoje a regulação externa é feita por agências governamentais. Mas é importante que as entidades médicas também exerçam este papel. Como o médico é conselheiro do paciente, ele tem uma influência sobre sua decisão.

Por isso a ação do médico tem que estar regulada tanto por questões éticas, pela ótica do Conselho, quanto as científicas.

O objetivo é evitar que os interesses financeiros se sobreponham aos interesses do usuário”, pondera. A experiência da Sociedade de Cancerologia, com os fóruns do ano passado, mostrou que os médicos oncologistas foram receptivos em participar e entenderam a proposta de buscar recomendações baseadas em análise crítica e literatura de boa qualidade e isenta.

O médico é receptivo a participar de eventos porque ele tem que estar atualizado. E se o médico tiver acesso à informação de boa qualidade, ele vai se comprometer com isso. É o que ensinou a experiência com a oncologia.”A Amrigs pode ocupar esse espaço organizando seus comitês científicos que vão regular a caneta do médico”, prevê. Comitês livres de conflitos de interesse existem na Europa e Canadá. Nos EUA a recomendação ainda está na mão de grandes hospitais de câncer americanos que tem relações muito íntimas com a indústria farmacêutica. “Importante é que nenhuma força de mercado eduque o médico”, reitera.

Para firmar este novo paradigma para a reestruturação do sistema suplementar no Brasil, é preciso fortalecer as entidades médicas para que elas cumpram esse papel de educação continuada livre de relações íntimas com a indústria, pois mesmo que não se queira, há contaminação”, completa.

Oncologia: transparência e decisões por consenso

Hoje, no Comitê Científico de Oncologia da Amrigs, todos declaram seu potencial conflito de interesse. “É importante que haja transparência e que as decisões sejam tomadas por consenso”, explica o Dr. Hernani. O Comitê tem uma reunião mensal na qual se analisa a solicitação das operadoras e do judiciário. Em seguida se elaboram os pareceres em respostas às consultas, com base nas provas publicadas na literatura médica.

Fonte: Jornal AMRIGS